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"DOUTOR BARBOSA"  
SINÔNIMO DE ÉTICA.  SINÔNIMO DE DIGNIDADE !
       
                                                                          Cláudio Monteiro
   
               O destino vive nos pregando peças. Justamente no instante em que o Brasil atravessa a pior crise ética e moral de toda sua história, com vários e vários  homens públicos envoltos num mar de corrupção, acabamos de perder, sem aviso prévio, um dos maiores baluartes da luta em prol  da  dignidade, da ética e da igualdade entre os seres humanos.

               Igualdade,  aliás, que o jornalista Barbosa Lima Sobrinho pregou até o  fim de sua vida centenária  e coerente. Seu último artigo semanal no Jornal do Brasil  --  onde escrevia ininterruptamente há 70 anos  -- publicado domingo (16),  justamente no dia de seu falecimento, abre afirmando que "a igualdade é pressuposto básico da democracia". 

               Lúcido, em todos os sentidos, apesar  dos 103 anos de idade, o "doutor Barbosa" escreveu , defendeu e lutou pelos interesses de nossa pátria como nenhum outro brasileiro neste século que vai também se findando. Igualmente, deixa-nos  um legado de ensinamentos, de valores humanísticos e de simplicidade que será difícil de encontrar e comparar com qualquer outra personalidade de nossa história contemporânea. 

               Carinhosamente, e com muita justiça,   chamado de "doutor Barbosa"  --  independente de qualquer título de doutorado obtido em  bancos acadêmicos  --  foi sobretudo doutor em honestidade, doutor em retidão de caráter. Era um cidadão acima de qualquer suspeita! Exemplo de humildade apesar da brilhante trajetória de vida como jornalista, advogado, deputado, governador de Pernambuco, imortal da Academia Brasileira de Letras desde 1937 e presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), entre tantas outras atividades.  Dentre elas vale ressaltar sua participação na luta contra a ditadura implantada no Brasil com o golpe militar de 64; na envolvente campanha das Diretas, Já!, em 84  e,  mais recentemente, em 92, quando encabeçou o manifesto ao Congresso Nacional que culminou com o impeachment do corrupto ex-presidente Collor. 

                Mas não vou me aprofundar  --  nem é necessário porquanto  a grande imprensa fará isso ao longo desta semana -- em seu  currículo, em sua vasta biografia. Quero registrar e tornar público algumas passagens que tive a honra e o privilégio de testemunhar nos  períodos e momentos em que convivi com nosso querido  Barbosa Lima Sobrinho, quando fui eleito conselheiro da ABI em dois mandatos consecutivos, entre os anos de 88 e 94.

                Naquele tempo eu exercia o jornalismo e militava na direção da seccional da ABI em São Paulo. Como a sede da Associação fica no Rio de Janeiro, eu viajava uma vez por mês para a reunião do Conselho, órgão deliberativo da entidade. Logo no começo  --  na época era o mais  jovem conselheiro  --  eu me senti acanhado  no meio de tantas personalidades e renomados jornalistas . Foi o doutor Barbosa que me chamou em particular e tratou de me desinibir : "você não disse que é filho de pernambucano, como eu ? Tenha coragem,  pode pedir a palavra. Apesar de ser o mais velho hoje, eu também já fui o mais jovem aqui no Conselho e na presidência da ABI ".

                Após as reuniões, dentro do pouco tempo que ele dispunha e que a idade lhe permitia, Barbosa passava para sua sala, contígua a do Conselho,  para uma papo informal com um grupo que sempre ficava. Eram apenas 15, 20 minutos. Mas  extremamente  gratificantes. Para mim era uma aula. O doutor Barbosa dominava a história do Brasil e da imprensa com uma memória mnemônica. Memória que,  numa cortesia e atenção para comigo, não o deixava esquecer de meu nome, apesar de me  encontrar  apenas uma vez por mês e não ter nenhuma obrigação de lembrar. Quando não lhe vinha prontamente  meu sobrenome, era rápido : o  " Cláudio de São Paulo" .

                Espírito coletivo e de fortalecimento da entidade também não lhe faltavam. Quando Luiza Erundina assumiu como  prefeita de São Paulo , em 89, Barbosa Lima Sobrinho, sabendo que eu era assessor de imprensa do secretário de obras do novo governo, manifestou vontade de trocar idéias com a prefeita e pediu a mim que marcasse o encontro. Imagine se o presidente nacional da ABI precisava do Cláudio Monteiro para isso. Bastava um simples telefonema dele direto ao gabinete dela, ou então para o saudoso Perseu Abramo, na época assessor de imprensa da prefeita, para agendar muito mais rapidamente. Mas não. Me disse ele: "faço questão que seja agendado pela ABI/SP e que você esteja presente, como forma de fortalecer a representação local". 

                Em outra ocasião, entre 89 e 90, não me recordo o ano com exatidão, houve um episódio em que  ele demonstrou  toda sua imensa compreensão e sabedoria. Numa das visitas dele a São Paulo onde tinha parentes ( ou ainda tem, não sei)  marquei, à pedido do então presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais em SP ( por  questão ética, prefiro não revelar o nome)  um jantar na casa do mesmo. Depois de rodarmos por quase uma 1 hora  --  a casa era distante na Zona Norte e por cima ainda nos perdemos, o doutor Barbosa já cansado, com 93 anos  --    lá chegamos e qual não foi a decepção. Só estava a esposa. O  presidente havia saído para "uma reunião sindical" , mesmo sabendo que receberia uma personalidade em casa. E o pior: nem nos telefonou avisando... Eu fiquei enfurecido com o desrespeito. Barbosa,  sereno. Já no carro, de volta, eu  constrangido, morrendo de vergonha, ele sabiamente me disse "não fique constrangido, Cláudio, nenhum de nós pode ser culpado pelo desrespeito dos outros. A vida vai ensinar a ele" .  Nunca tornei público o fato.  Mas agora entendo que a memória e a verdade exigem o registro.

               Compromisso com a categoria dos jornalistas era outra de suas qualidades. No ano de  92 eu coordenava a Comissão Nacional dos Jornalistas em Assessoria de Imprensa da FENAJ ( Federação dos Jornalistas) e convidei o doutor Barbosa para fazer a conferência de abertura do VI ENJAI, ( encontro nacional do segmento dos jornalistas que atuam em AI), que aconteceria no Rio, justamente em 10 de setembro, Dia da Imprensa. Apesar  de vários outros convites para falar no mesmo dia, ele, sempre amável, pediu para a secretária priorizar o evento em sua agenda. No dia,  fui buscá-lo em sua casa no bairro do Botafogo. Lá chegando, a esposa, dona Maria José, me disse "acho melhor o Alexandre (ela o chamava pelo primeiro nome) não ir, ele não está bem, está meio gripado".  Ele ouviu e, mesmo já com 95 anos , disse : "não, eu vou. Assumi o compromisso, não posso faltar" . E lá foi o "velhinho" e nos proporcionou uma bela palestra.

                Os exemplos  deixados por ele são muitos e o tornam inesquecível. Mesmo à distância, morando já há alguns anos no Rio Grande do Norte  e sem o contato de antes, sempre acompanhava suas  lúcidas idéias expressas através dos artigos no JB. Muito de minha conduta de vida profissional e pessoal tenho pautado, e pretendo continuar pautando, com base  na simplicidade e nos ensinamentos transmitidos pelo "doutor Barbosa" .                  

                Confesso, também,  que não foi fácil escrever este artigo que, por isso mesmo,  está no ar, no BRASIL JÁ ! , com 24 horas de atraso.   Por várias vezes, enquanto redigia, as lagrimas rolaram pela face  --  não tenho vergonha disso  --  ao lembrar da figura, da postura e da humildade Dele.

                Por tudo isso, e muito mais, não seria disparatado ou injusto se as futuras edições do "Aurelião" trouxessem o verbete "doutor Barbosa" como sinônimo de ética, como sinônimo de dignidade!     

   Adeus, "doutor Barbosa".  Parafraseando o poeta, se todos os brasileiros fossem iguais ao senhor, que maravilha seria viver...

Foto: arquivo pessoal
    Barbosa Lima Sobrinho e Cláudio Monteiro em congresso de jornalistas, em 1992, no Rio de Janeiro.

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